Quando o problema não está no inglês
A reunião acontece em inglês. Todos entendem o idioma, ninguém demonstra dificuldade relevante de vocabulário e, ainda assim, algo parece não funcionar.
Um profissional considera o colega estrangeiro excessivamente direto. Outro interpreta uma resposta diplomática como concordância. Durante a reunião, uma liderança faz uma pergunta e recebe silêncio. Mais tarde, descobre que parte da equipe discordava da decisão, embora ninguém tenha dito isso naquele momento.
Quando situações assim acontecem, é comum atribuir o problema ao inglês. Talvez falte fluência ou alguém não tenha entendido exatamente o que foi dito. Em outros casos, a primeira hipótese é a necessidade de ampliar o vocabulário.
No entanto, a origem do ruído pode estar em outro lugar.
Em equipes multiculturais, falar a mesma língua não significa compartilhar as mesmas regras de comunicação. A comunicação intercultural envolve também expectativas sobre como discordar, dar feedback, demonstrar respeito, tomar decisões, negociar e até interpretar aquilo que não foi dito.
A própria SHRM resume bem esse desafio ao discutir liderança intercultural. Diferenças nos estilos de comunicação, tomada de decisão, feedback e normas de trabalho podem gerar mal-entendidos capazes de afetar colaboração, performance e engajamento.
Por isso, preparar profissionais para trabalhar internacionalmente exige mais do que desenvolver um inglês gramaticalmente correto.
Quando o inglês está certo, mas a mensagem chega errada
Imagine que, durante uma reunião, alguém diga:
“I’m not sure this is the best approach.”
A frase é simples. Não existe vocabulário avançado e, provavelmente, nenhum profissional com inglês intermediário ou avançado teria dificuldade para compreender seu significado literal.
Mas o que ela significa naquela interação?
Pode representar uma dúvida genuína ou uma maneira diplomática de dizer que a proposta não deveria avançar. Dependendo do contexto, a mesma frase também pode funcionar como um convite para que o interlocutor apresente argumentos melhores.
É justamente aí que a comunicação intercultural começa a interferir.
Erin Meyer, professora do INSEAD e autora de The Culture Map, organiza diferenças culturais no ambiente profissional em dimensões como comunicação, feedback, liderança, tomada de decisão, confiança e discordância.
Em culturas de comunicação mais explícita, por exemplo, clareza tende a significar dizer exatamente aquilo que se pretende comunicar. Já em contextos de comunicação mais implícita, parte da mensagem depende da situação e da capacidade de interpretar nuances.
Consequentemente, duas pessoas podem compreender perfeitamente todas as palavras de uma frase e chegar a interpretações diferentes sobre a intenção por trás dela.
Nesse caso, o problema não é tradução. É contexto.
Objetividade, feedback e silêncio não significam a mesma coisa em todos os lugares

Essas diferenças aparecem em pequenas interações da rotina.
Um feedback muito direto pode transmitir eficiência para uma pessoa e agressividade para outra. Por outro lado, uma resposta cuidadosa pode demonstrar respeito em determinado contexto e parecer evasiva em outro.
O mesmo acontece durante uma discussão. Interromper para apresentar um contraponto pode demonstrar envolvimento para alguns profissionais. Para outros, a mesma atitude pode ser interpretada como desrespeito.
Até o silêncio pode carregar significados diferentes.
Em determinada equipe, responder rapidamente demonstra domínio e participação. Em outra, alguns segundos de silêncio podem representar reflexão antes de uma resposta. Portanto, uma liderança que interpreta qualquer silêncio como insegurança corre o risco de avaliar incorretamente a participação de determinados profissionais.
A mesma lógica aparece no feedback. O modelo de Meyer mostra que culturas variam tanto na maneira de comunicar quanto na forma de apresentar críticas. Inclusive, uma cultura pode utilizar comunicação relativamente indireta em determinadas situações e, ao mesmo tempo, adotar feedback negativo mais direto.
Por isso, dividir culturas apenas entre “pessoas mais diretas” e “pessoas menos diretas” também simplifica demais o problema.
A cross-cultural communication exige perceber que diferentes regras podem operar simultaneamente.
A hierarquia também muda quem fala e quando fala

Considere outra situação. Durante uma call global, uma liderança apresenta uma decisão e pergunta:
“Does anyone disagree?”
Ninguém responde.
Para alguém acostumado a ambientes mais horizontais, o silêncio pode significar consenso. Entretanto, em culturas nas quais a distância hierárquica exerce maior influência sobre as relações profissionais, discordar publicamente de uma liderança pode exigir muito mais cautela.
O problema aparece quando cada lado interpreta o comportamento do outro segundo suas próprias referências.
A liderança pode concluir que todos concordaram. Enquanto isso, parte da equipe pode acreditar que aquela não era uma situação apropriada para contestar a decisão.
Pesquisas clássicas sobre times multiculturais já identificaram diferenças em comunicação direta e indireta, atitudes diante da hierarquia e autoridade e normas de tomada de decisão entre os fatores capazes de comprometer o funcionamento das equipes.
Esse ponto merece atenção do RH. Afinal, alguns comportamentos interpretados como baixa participação, pouca autonomia ou dificuldade de comunicação podem estar ligados à maneira como aquele profissional entende autoridade, discordância e exposição.
Isso não significa explicar qualquer comportamento pela nacionalidade. Pelo contrário. Pessoas de uma mesma cultura apresentam diferenças individuais importantes, e transformar referências culturais em estereótipos cria outro problema. O próprio modelo de Meyer ressalta essa variação entre indivíduos.
A cultura oferece pistas. Ela não fornece um manual definitivo sobre cada pessoa.
Negociações internacionais expõem esses ruídos ainda mais

Se diferenças culturais já aparecem em reuniões cotidianas, elas se tornam ainda mais relevantes durante uma negociação.
Negociar envolve interpretar concessões, objeções, pausas, grau de formalidade, construção de confiança e disposição para chegar a um acordo. Além disso, as partes podem ter expectativas diferentes não apenas sobre o resultado, mas também sobre como a própria negociação deve acontecer.
Em artigo publicado em 2025, a Harvard Business Review destacou justamente esse ponto: negociações internacionais se tornam mais complexas quando as partes não compartilham as mesmas normas de trabalho e expectativas sobre o processo.
Imagine, por exemplo, que um profissional interprete uma resposta pouco direta como sinal de abertura. Por isso, continua pressionando por uma decisão porque acredita que ainda existe espaço para negociação. O interlocutor, entretanto, acredita que já demonstrou claramente que não pretende avançar.
Nenhum dos dois necessariamente “falou inglês errado”.
Ainda assim, ocorreu uma falha de comunicação intercultural.
Os chamados conflitos culturais, portanto, nem sempre aparecem como grandes confrontos. Muitas vezes, começam em pequenas interpretações equivocadas que se acumulam: um e-mail considerado ríspido, uma objeção que não foi percebida, uma decisão aparentemente acordada ou uma resposta que pareceu pouco comprometida.
Quando ninguém identifica a origem do ruído, o problema pode ser atribuído à personalidade, à competência ou ao nível de inglês do profissional.
Por que gramática e fluência não resolvem tudo
Naturalmente, domínio linguístico continua sendo indispensável. Quanto menor o repertório do profissional, menor será sua capacidade de adaptar a linguagem, interpretar nuances e responder com precisão.
O problema está em tratar o idioma como se fosse a única variável.
Um profissional pode dominar tempos verbais, ter excelente pronúncia e amplo vocabulário e, ainda assim, não perceber que determinada maneira de discordar produz um efeito diferente em outro contexto cultural.
É nesse ponto que o Business English precisa ir além do ensino de estruturas linguísticas.
Em ambientes internacionais, o profissional não utiliza inglês apenas para construir frases corretas. Ele precisa gerar alinhamento, construir confiança, defender posições, negociar, liderar e administrar divergências.
Uma publicação recente da SHRM sobre inteligência cultural faz uma distinção especialmente relevante: compartilhar o inglês não significa necessariamente compartilhar o entendimento. As diferenças podem surgir justamente em situações que exigem nuance, como feedback, discordância, confiança e liderança.
Portanto, desenvolver comunicação intercultural significa ampliar a capacidade de perceber o contexto e adaptar a maneira de comunicar sem perder autenticidade ou precisão.
Preparar equipes multiculturais exige prática, não uma lista de regras culturais
Existe, porém, outro risco: tentar resolver o problema ensinando uma lista de comportamentos por país.
“Americanos são assim.” “Japoneses fazem isso.” “Alemães preferem aquilo.”
Além de criar estereótipos, essa abordagem ignora diferenças individuais, organizacionais e até regionais. A SHRM chama atenção, por exemplo, para o risco de tratar grupos culturalmente diversos como se fossem homogêneos.
Uma preparação mais consistente trabalha situações.
Como discordar de maneira mais ou menos direta? De que forma verificar se uma decisão realmente foi compreendida? Como reformular uma mensagem quando o interlocutor demonstra desconforto? E como dar feedback quando alguém responde de forma diferente da esperada?
Essas competências podem ser desenvolvidas por meio de simulações de reuniões, negociações, apresentações e conversas de feedback. Dessa forma, o profissional não memoriza apenas “regras culturais”. Ele aprende a observar sinais, testar interpretações e ajustar sua comunicação.
Nesse sentido, desenvolver cross-cultural communication significa aumentar repertório e capacidade de adaptação.
Para equipes multiculturais, essa flexibilidade pode ser tão importante quanto a própria fluência.
O RH precisa olhar além do nível de inglês
Quando uma empresa possui operações internacionais, avaliar apenas o nível linguístico pode deixar uma parte importante da competência profissional fora do diagnóstico.
O profissional precisa de inglês suficiente para desempenhar sua função. No entanto, também precisa compreender como sua maneira de comunicar pode ser interpretada por pessoas que trabalham a partir de outras referências.
Por isso, programas corporativos podem incorporar situações multiculturais ao desenvolvimento do idioma.
Em uma negociação, por exemplo, é possível simular diferentes graus de objetividade. Para as lideranças, o treinamento pode explorar maneiras de solicitar opiniões sem depender apenas de perguntas abertas em grupo. Já nas reuniões, podem ser trabalhadas estratégias para confirmar entendimento sem presumir concordância.
Na English for Business, a personalização permite conectar o Business English às situações internacionais que fazem parte da rotina de cada profissional. Área, função, interlocutores, objetivos e desafios são considerados para que reuniões, apresentações, negociações e outras situações sejam trabalhadas em contextos próximos da realidade.
Assim, o desenvolvimento não se limita a perguntar se o inglês está correto.
A pergunta passa a ser: a comunicação está produzindo o efeito que esse profissional precisa produzir?
Comunicação intercultural transforma inglês em capacidade de atuação global
Em uma equipe internacional, uma frase gramaticalmente perfeita ainda pode gerar a interpretação errada.
Esse é um dos motivos pelos quais a comunicação intercultural precisa fazer parte da preparação de profissionais que trabalham com diferentes países, culturas e mercados.
O objetivo não é criar especialistas em todas as culturas, tampouco eliminar diferenças. Profissionais mais preparados aprendem a reconhecer que suas próprias referências não são universais e desenvolvem recursos para adaptar a comunicação quando necessário.
Para o RH, essa mudança também amplia a maneira de enxergar o desenvolvimento de idiomas. O inglês deixa de ser apenas uma competência linguística e passa a fazer parte da capacidade de colaboração, liderança e atuação internacional.
